Em silêncio na CPMI, empresário Paulo Camisotti é apontado como líder de esquema milionário no INSS


O cenário das investigações sobre as fraudes sistêmicas contra aposentados e pensionistas no Brasil ganhou um novo e dramático capítulo nesta quinta-feira (26 de fevereiro de 2026). O empresário Paulo Camisotti, convocado para depor na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, optou por uma estratégia de blindagem total e permaneceu em silêncio durante toda a sessão. A postura do depoente provocou forte indignação entre os parlamentares, culminando em um pedido de prisão imediata e na revelação de cifras astronômicas que reconfiguram a hierarquia do crime investigado.

Amparado por um habeas corpus concedido previamente pela Justiça, que lhe garantia o direito de não produzir provas contra si mesmo, Camisotti levou a prerrogativa ao extremo. O empresário negou-se a responder até mesmo a questionamentos sobre fatos de conhecimento público e notório. Entre os assuntos ignorados estava a situação prisional de seu próprio pai, Maurício Camisotti, que já se encontra detido sob a acusação formal de envolvimento no mesmo esquema de fraudes que sangra os cofres da Previdência Social e o bolso dos segurados.

O Escudo do Silêncio e a Indignação no Congresso

A sessão da CPMI, que era aguardada com grande expectativa nos bastidores de Brasília, transformou-se em um monólogo dos parlamentares frente à mudez calculada do investigado. O silêncio de Paulo Camisotti não foi seletivo; foi absoluto. Ao ser questionado sobre a relação dele ou de suas dezenas de empresas com as associações suspeitas, o empresário limitava-se a repetir uma única frase, de forma robótica:

“Vou permanecer em silêncio.”

A mesma resposta padronizada foi utilizada quando os membros da comissão perguntaram sobre cargos que ele ocupa, vínculos societários e outros pontos considerados meramente informativos e cadastrais pelos parlamentares. A recusa em confirmar até mesmo a prisão do pai, Maurício Camisotti, foi vista pelos membros da CPMI como um deboche aos trabalhos de investigação do Congresso Nacional, acirrando os ânimos no plenário.

O Verdadeiro Operador: A Família Camisotti e os R$ 350 Milhões

Se o depoente optou por calar, o relator da CPMI, o deputado federal Alfredo Gaspar (União-AL), decidiu expor em detalhes as descobertas da comissão. Em uma fala contundente, Gaspar desmontou a narrativa que até então dominava a opinião pública. Segundo o parlamentar, a atenção da mídia e das autoridades investigativas focou demasiadamente na figura conhecida como “Careca do INSS”, o que acabou servindo como uma cortina de fumaça, desviando o foco de outros atores muito mais poderosos no organograma da fraude.

De acordo com o mapeamento financeiro apresentado pelo relator, a família Camisotti teria movimentado valores muito superiores aos do antigo alvo principal. O relatório aponta que o grupo familiar operou cifras cinco vezes maiores do que as atribuídas ao “Careca do INSS”.

Os dados cruzados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e detalhados na CPMI revelam que apenas três entidades investigadas no esquema de descontos indevidos teriam repassado, juntas, mais de R$ 800 milhões. Desse montante colossal, a investigação aponta que cerca de R$ 350 milhões teriam chegado diretamente a contas de empresas ligadas à família Camisotti.

“Essa família, com mais de R$ 350 milhões dessas três entidades, é três vezes, quatro vezes, cinco vezes, melhor falando, mais forte do que o Careca do INSS. Botaram o nome do Careca do INSS e a gente ficou repetindo que ele era o maior operador financeiro. Mas lembrem deste nome: Camisotti. Nesta operação aqui, foi cinco vezes maior”, declarou Alfredo Gaspar, batendo na mesa e exigindo a atenção dos demais membros da comissão.

Um Império de Fachada? A Teia de Mais de 20 Empresas

Para viabilizar a lavagem de dinheiro e o fluxo de capital originado nos descontos ilícitos nos contracheques de aposentados, o esquema necessitava de uma vasta estrutura corporativa. O deputado Alfredo Gaspar destacou durante a audiência que Paulo Camisotti figura formalmente como presidente, sócio ou representante legal de mais de 20 empresas.

O escopo de atuação dessas empresas é variado, mas todas convergem para o recebimento de recursos sob suspeita. Entre as principais pessoas jurídicas na mira da quebra de sigilo da CPMI estão:

  • Benfix;
  • Brasil Dental Serviços Compartilhados;
  • Rede Mais Saúde.

Essas companhias são apontadas pelas investigações preliminares como as destinatárias finais dos recursos desviados por associações de fachada. Tais associações operavam descontando valores diretamente dos benefícios do INSS sob a justificativa de filiações sindicais ou seguros de vida que os idosos e pensionistas jamais solicitaram ou autorizaram.

Segundo a argumentação do relator, a quantidade de empresas e o volume de capital movimentado poderiam, em tese, indicar a presença de um empresário extremamente bem-sucedido e com grande capacidade de gestão. No entanto, Gaspar apontou a contradição óbvia: Camisotti é incapaz de explicar de forma lícita quais são as atividades reais dessas empresas, que serviços efetivamente prestam, ou quem são seus clientes além das associações investigadas, apesar da movimentação de cifras milionárias que transitaram por suas contas.

A Mecânica da Fraude contra os Aposentados

Para entender a gravidade das acusações que recaem sobre o clã Camisotti, é necessário compreender a engenharia da fraude investigada pela CPMI. O esquema, que prejudicou centenas de milhares de brasileiros vulneráveis, funcionava através de brechas no sistema de consignação e descontos associativos do Instituto Nacional do Seguro Social.

Associações civis, muitas vezes criadas apenas no papel ou adquiridas por laranjas, firmavam convênios com o INSS. A partir daí, passavam a inserir descontos mensais não autorizados (geralmente de pequenos valores, entre R$ 30 e R$ 70, para não chamar a atenção imediata da vítima) nos pagamentos de aposentados em todo o país. O volume massivo de pequenos descontos gerava uma arrecadação astronômica.

O desafio dos criminosos, segundo os investigadores, era “esquentar” (lavar) esse dinheiro e repassá-lo aos verdadeiros cabeças do esquema. É exatamente neste ponto que, segundo a tese de Alfredo Gaspar, entram as mais de 20 empresas de Paulo Camisotti, emitindo notas fiscais por serviços supostamente não prestados (como planos odontológicos fantasmas e consultorias) para justificar o recebimento de dezenas de milhões de reais das associações.

Pedido de Prisão e a Mudança de Status do Investigado

Diante das provas documentais acumuladas pela comissão e da total falta de colaboração do depoente, o clima na CPMI escalou rapidamente. A recusa de Paulo Camisotti em justificar os R$ 350 milhões ou as operações da Benfix, da Brasil Dental e da Rede Mais Saúde foi a gota d’água para a relatoria.

Alfredo Gaspar utilizou seu tempo de fala não apenas para expor o tamanho do rombo, mas para exigir uma ação dura e imediata das autoridades policiais e judiciárias contra o depoente.

“Que ele saia daqui como investigado e seja preso”, cravou Gaspar, solicitando a mudança oficial de status de Paulo Camisotti perante os inquéritos conexos à comissão.

Embora a CPMI não tenha o poder de decretar a prisão preventiva por conta própria (salvo em casos de flagrante delito ocorrido durante a sessão), a recomendação do relator tem um peso jurídico e político imenso. A comissão deverá enviar ofícios urgentes ao Ministério Público Federal (MPF) e à Polícia Federal endossando o pedido de prisão cautelar, argumentando que a liberdade de Paulo Camisotti representa um risco à ordem econômica e à instrução criminal, dado o seu poderio financeiro e a complexidade da rede de empresas de fachada que ainda podem estar ativas.

Próximos Passos e Expectativas

A sessão desta quinta-feira muda definitivamente o rumo da CPMI do INSS. O nome “Careca do INSS”, embora ainda relevante para a investigação da base operacional do esquema, perde o protagonismo para o sobrenome Camisotti. A comissão agora deve concentrar seus esforços em aprovar quebras de sigilo telemático, telefônico e bancário adicionais das mais de 20 empresas ligadas a Paulo e seu pai, Maurício.

Além disso, espera-se a convocação de sócios minoritários, contadores e laranjas ligados à Benfix e à Rede Mais Saúde, na tentativa de contornar o silêncio do núcleo duro da família. O objetivo do Congresso e dos órgãos de persecução penal é não apenas responsabilizar criminalmente os envolvidos, mas promover o rastreamento e o sequestro de bens para ressarcir os cofres da União e, fundamentalmente, os aposentados lesados pelas fraudes milionárias.

O silêncio de Paulo Camisotti pode ter lhe poupado de produzir provas vocais contra si mesmo nesta quinta-feira, mas os rastros de R$ 350 milhões no sistema financeiro nacional falam alto demais para serem ignorados pelas autoridades brasileiras.